Uso diário de IA pode prejudicar desempenho escolar, alerta OCDE; veja como evitar

💡 Resumo rápido: Relatório da OCDE mostra que o uso frequente e sem orientação de chatbots pode afetar a aprendizagem e o desempenho dos estudantes.

O uso de ferramentas de inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos estudantes, mas recorrer a chatbots todos os dias para realizar tarefas escolares pode não significar uma aprendizagem melhor. Essa é uma das principais conclusões apresentadas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em dados do PISA 2025, divulgados nesta terça-feira, 8 de setembro de 2026.

A análise mostra que a relação entre inteligência artificial e desempenho escolar é mais complexa do que uma simples divisão entre “usar IA” ou “não usar IA”. O resultado depende da frequência, do objetivo e da forma como o estudante interage com a tecnologia. Quando o chatbot substitui o raciocínio, a leitura e a resolução de problemas, o risco é produzir respostas melhores sem necessariamente desenvolver conhecimento.

O que a OCDE descobriu sobre o uso de IA nas escolas

De acordo com os resultados do PISA 2025, o uso de chatbots para atividades escolares se tornou comum na maioria dos países e economias avaliados. Entre as aplicações mais citadas estão aprender sobre um tema, fazer pesquisas iniciais, resumir textos e elaborar rascunhos para trabalhos escritos.

Apesar da popularização, o uso quase diário ainda foi relatado por apenas cerca de um em cada cinco estudantes, em média entre os países da OCDE. O levantamento também indica que os alunos que não utilizam chatbots para determinadas tarefas escolares geralmente apresentam desempenho superior ao dos colegas que usam a ferramenta nessas mesmas atividades.

Isso não significa, necessariamente, que a inteligência artificial provoque diretamente uma queda nas notas. A própria OCDE ressalta que os dados revelam associações, e não uma prova definitiva de causa e efeito. Estudantes com dificuldades podem recorrer mais à IA, por exemplo, o que também influencia os resultados observados.

Mesmo assim, o padrão identificado serve como alerta: utilizar a tecnologia de maneira frequente, automática e sem acompanhamento pode estar relacionado a uma participação mais superficial no processo de aprendizagem.

Por que o uso excessivo pode atrapalhar a aprendizagem

O principal risco aparece quando o aluno transfere para a IA justamente a etapa mental que deveria ajudá-lo a aprender. Em vez de interpretar um texto, formular uma hipótese ou resolver uma equação, ele pede a resposta pronta e apenas copia o resultado.

Esse comportamento pode criar a impressão de produtividade. O trabalho é concluído mais rapidamente, a redação parece bem estruturada e a pesquisa ganha velocidade. No entanto, o estudante pode não conseguir explicar o conteúdo quando precisa responder sozinho a uma prova, participar de uma apresentação ou resolver um problema diferente.

O Digital Education Outlook 2026, da OCDE, destaca justamente essa diferença entre executar uma tarefa com ajuda de inteligência artificial e realmente aprender. Segundo a organização, ferramentas generativas podem melhorar o resultado imediato de uma atividade, mas não garantem ganhos duradouros quando são usadas sem intenção pedagógica.

O problema não é apenas a quantidade

Embora o uso diário tenha chamado atenção, a frequência não é o único fator importante. Um estudante pode utilizar IA todos os dias para revisar conceitos, comparar explicações, receber perguntas de prática e identificar erros em um rascunho. Nesse caso, a ferramenta funciona como apoio.

Por outro lado, alguém que utiliza o chatbot apenas para gerar respostas prontas pode prejudicar o próprio desenvolvimento mesmo usando a tecnologia poucas vezes por semana. O objetivo e o grau de autonomia mantido pelo aluno fazem diferença.

Uso moderado e orientado apresenta resultados diferentes

Os dados da OCDE indicam que estudantes que utilizam IA semanalmente para ajudá-los a aprender tendem a apresentar desempenho em ciências semelhante ao de alunos que não usam chatbots, quando são consideradas as diferenças socioeconômicas. Já o uso muito frequente ou ocasional demais aparece associado a resultados inferiores em comparação com os não usuários.

Em tarefas como resumir textos e pesquisar temas novos, os usuários moderados tiveram desempenho melhor do que aqueles que usavam a ferramenta quase todos os dias ou apenas raramente. A interpretação mais provável é que a inteligência artificial pode ser útil quando aplicada com propósito, mas perde valor quando substitui o esforço intelectual necessário para dominar o assunto.

Outro dado relevante é que estudantes que aprendem na escola a avaliar a qualidade das informações produzidas por IA podem ter desempenho superior. Isso reforça a importância de ensinar não apenas como utilizar um chatbot, mas também como questionar suas respostas, verificar fontes e reconhecer possíveis erros.

Como estudantes podem usar IA sem comprometer o aprendizado

Para aproveitar os benefícios da tecnologia sem transformar o chatbot em uma “muleta”, algumas práticas são recomendadas:

  • Tente resolver a tarefa antes de consultar a IA: escreva suas ideias, faça uma conta ou elabore uma hipótese antes de pedir ajuda.
  • Use a ferramenta como tutor: solicite explicações passo a passo, exemplos diferentes e perguntas para testar seu entendimento.
  • Peça críticas ao seu trabalho: em vez de pedir um texto completo, envie seu rascunho e solicite sugestões de clareza, organização e argumentação.
  • Verifique informações importantes: compare as respostas com livros, materiais didáticos, artigos acadêmicos e fontes oficiais.
  • Evite copiar respostas sem compreender: se você não consegue explicar o conteúdo com suas próprias palavras, ainda não aprendeu o suficiente.
  • Pratique sem assistência: depois de estudar com IA, faça exercícios ou responda perguntas sem consultar o chatbot.

O papel das escolas e dos professores

A discussão não deve ser tratada apenas como uma proibição. A inteligência artificial já está acessível aos estudantes e tende a continuar presente em atividades acadêmicas e profissionais. Por isso, escolas e professores precisam estabelecer regras claras sobre quando e como a tecnologia pode ser utilizada.

Uma alternativa é criar avaliações que valorizem o processo, e não somente a resposta final. Apresentações orais, registros de etapas, debates, resolução comentada de problemas e atividades feitas em sala podem ajudar a identificar se o aluno realmente compreendeu o assunto.

A OCDE também aponta que o acesso à educação para o uso crítico da IA não é distribuído de forma igual. Estudantes de contextos mais favorecidos tendem a relatar com maior frequência que aprendem a avaliar conteúdos gerados por inteligência artificial. Se as escolas não oferecerem orientação para todos, a tecnologia pode ampliar desigualdades já existentes.

IA na educação: ferramenta de apoio, não substituta do pensamento

O alerta da OCDE não representa uma rejeição à inteligência artificial nas escolas. Pelo contrário: os dados sugerem que a tecnologia pode contribuir para a aprendizagem quando é usada com moderação, supervisão e objetivos bem definidos.

O ponto central é evitar que o chatbot faça pelo estudante aquilo que ele precisa aprender a fazer sozinho. A IA pode explicar um conceito, sugerir caminhos, apresentar exemplos e ajudar a revisar um texto. Porém, leitura, análise, criatividade, argumentação e capacidade de resolver problemas continuam dependendo da participação ativa do aluno.

Na prática, a melhor estratégia é combinar o uso da ferramenta com momentos sem assistência digital. O estudante deve utilizar a IA para ampliar sua compreensão, mas também precisa testar seus conhecimentos de forma independente. Esse equilíbrio pode transformar a tecnologia em uma aliada da educação, em vez de uma solução rápida que mascara dificuldades e enfraquece a aprendizagem.

Fonte: OCDE — Resultados do PISA 2025.

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